quarta-feira, 8 de outubro de 2014

[EU VI] "Travessias" e "A Intrusa", sob a ótica de Josias da Costa Ribeiro

Seguindo com nossa sessão [EU VI] nosso crítico para esta edição do MOSAICO, o Josias, relatou suas impressões sobre dois espetáculos que rolaram na primeira semana do evento.

Acompanhe aí! E fique a vontade pra nos enviar suas próprias críticas também, suas impressões são muito bem vindas!



TRAVESSIAS
do grupo Teatro Por Que Não?
apresentado no dia 03 de outubro no Mosaico 2014

Há uma grande dificuldade em ser bom, praticar o bem e ser feliz? ? Ao assistirmos o espetáculo “Travessias” do grupo teatral “Teatro por que não?” esses questionamento vem à tona. A leveza da narrativa apresentada pela dupla de atores, que reveza momentos lúdicos com momentos de extrema carga dramática, leva a plateia a risos e reflexões.
O espetáculo apresenta uma excelente possibilidade de reflexão das dificuldades do dia a dia. É através dos dois personagens em cena e que nos mostram, através de uma inocência (até infantil...), que existe uma dualidade, entre ser feliz, fazer o bem e uma premente necessidade de sobrevivência.
O destaque nesse espetáculo é a grande atuação dos dois atores que dão vida aos personagens. Eles proporcionam ao espectador uma real percepção, e levam a reflexão, sobre atitudes diárias e como é difícil, em muitos momentos, assumir uma postura inversa aquela que, costumeiramente, temos em nossa vida. Um dos momentos que mais me chamou a atenção foi o questionamento da personagem a seu amigo, que propunha que a partir daquele momento eles seriam bons, “Para ser bom, não posso mais roubar?”, um ato corriqueiro, do dia a dia, tinha que deixar de ser realizado em detrimento a um novo modo de vida... isso é difícil...
Acredito que o espetáculo tem um grande valor e uma primazia na sua construção e adaptação.  Acredito também que, os poucos elementos cênicos fazem o espectador viajar e construir no seu imaginário o que os personagens propõem ao longo de sua atuação.
Percebemos na apresentação que os atores, André Galarça e Aline Ribeiro, tem um entrosamento primordial para prender a atenção do público. Cenas de interação com a platéia dão ao espetáculo uma leveza e uma sensação, para o público presente, de que ele é um partícipe do espetáculo e nessas cenas não há como não lembrar de fatos e brincadeiras e possibilidades do dia a dia de cada um de nós.
Fazer o bem, respeitar dogmas, seguir um caminho, esquecer tudo o que foi feito e a partir de um momento abdicar de todas as certezas para seguir um novo preceito, são possibilidade apresentadas. Todas elas nos fazem perceber que a felicidade existe em pequenos momentos e que se apresenta em nossas vidas, muitas vezes, em ocasiões nunca imaginadas e que para alguns não há como vislumbrar aquilo como sendo felicidade.
A peça nos apresenta uma possibilidade e nos traz uma dúvida. Nos provoca para reflexão de quão somos bons, de como é difícil ser bom, tendo que esquecer nossos procedimentos e atender a novas determinações.
Sem dúvida, um espetáculo que provoca, que cumpre o seu papel de instigar a mente do público que acompanha o desenrolar da ação. Acreditamos também, que é um espetáculo ainda em construção, mas com atuação convincente, objetos cênicos que levam a uma construção no imaginário do expectador.

Assistir “Travessias” é um exercício de vivencia, de entendimento e um entretenimento de grande valor e digno de muitos aplausos.



A INTRUSA
da Cia. Retalhos de Teatro
apresentado no dia 4 de outubro no Mosaico 2014

O espetáculo “A Intrusa”, apresentado pela Cia Retalhos de Teatro, é uma daquelas peças que impressiona e, literalmente, mexe com o expectador.
Os momentos iniciais já demonstram o quem vem pela frente e é a luz, em tons de vermelho e direcionada, um dos destaques do espetáculo. O clima é tenso e é potencializado com a trilha sonora, os gestuais e movimentação dos atores em cena.
A iluminação dá uma ambientação especial proporcionando ao público a sensação de estar na sala da casa onde acontece toda encenação. É ela que faz do palco um lugar escuro, as vezes úmido e fétido, aguçando o imaginário, realizando assim um exercício para imaginação do expectador.
Em cena presenciamos uma família em transe, uma matriarca alucinada e que, mesmo sem poder sair de sua cadeira, ainda tem domínio total das pessoas de sua família. Essa mesma família que está em um profundo estado de loucura e alucinação em um local totalmente sombrio e misterioso.
Cada gesto, cada fala, cada movimentação cênica, impressiona e nos remete a uma família em profundo estado de loucura, uma família que parece ser isolada e que tem uma vida própria sem contato com o mundo externo.
A caracterização é forte, os diálogos são densos, sempre acompanhados de gritos e murmúrios. O destaque em cena é a atriz Aline Ribeiro que interpreta a matriarca da família, que mesmo sem poder se movimentar, tem o domínio dos seus familiares. Seus gestos, sua expressão, sua caracterização, são fantásticos tornando-se destaque no espetáculo.
É evidente a sintonia dos atores nas suas interpretações e o espetáculo proporciona um exercício de percepção e atenção, pois, em diversos momentos, todos atores estão em cena e suas interpretações são distintas, necessitando uma concentração intensa, o que acreditamos ser um grande trunfo do espetáculo, qual seja, a necessidade de um grau de concentração grande para acompanhar tudo o que se passa naquele período de tempo.
A montagem do espetáculo “A Intrusa”, apresentada pela Cia Retalhos de Teatro, é carregada de suspense e dramaticidade.  Seus atores demonstram uma capacidade dramática incrível e tornam a peça um espetáculo denso, pesado e em alguns momentos assustador, sem demonstração nenhuma de cenas ou representações, somente instigando o imaginário do público a acompanhar o texto, ocasionando assim um verdadeiro transe imaginário.
Um espetáculo que assisti duas vezes e com certeza assistirei mais algumas!!!

Josias da Costa Ribeiro
Crítico do Mosaico 2014

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